segunda-feira, 18 de março de 2013

Não podemos ser Pilatos.


          

Pôncio Pilatos teria sido apenas mais um governante de terras consideradas bárbaras pelo Império Romano, se não fosse um detalhe. Pilatos esteve frente a frente com Cristo num momento crucial da história. O momento do julgamento do Filho de Deus.

Um governador de províncias romanas, como era o caso da Judéia, tinha funções estabelecidas pelo imperador. Mas manter a ordem social era mais que uma função, era um lema. Roma não queria problemas com terras já conquistadas. Recolher tributo e julgar questões mais difíceis que poderiam envolver a pena máxima, também eram funções do governador.

Os quatro evangelhos registram o momento em que o governador da Judéia tem a responsabilidade de julgar a Jesus. Os relatos se completam. Em cada um, há um registro que nos traz um ensinamento útil para os dias de hoje:

Tornou, pois, a entrar Pilatos na audiência, e chamou a Jesus, e disse-lhe: Tu és o Rei dos Judeus? Respondeu-lhe Jesus: Tu dizes isso de ti mesmo, ou disseram-to outros de mim? (João 18:33-34)

A liderança judaica acusa o Mestre de tumultuar as cidades, de incitar a multidão causando danos à ordem pública, e de se declarar rei dos judeus. As acusações vão de encontro à responsabilidade máxima de um governador de províncias romanas. Roma tinha aversão a tumultos.

Mas para Pilatos, sua atenção fixou na última acusação. Em alguns detalhes dos relatos bíblicos, percebemos que o governador da Judéia conhecia as escrituras daquela província. O fato de Jesus se declarar rei dos judeus inquieta Pilatos. Ele não pergunta se o réu era um tumultuador. Ele quer saber se o réu era o Rei dos judeus.

Ainda é o início do julgamento, e Jesus faz uma pergunta simples e profunda. Imagino uma chance sendo dada. Imagino Jesus dando uma chance a Pilatos de confessar o reino de Deus. Cristo pergunta: Tu dizes isso de ti mesmo, ou disseram-to outros de mim? Observe que nosso Mestre queria que Pilatos declarasse se ele reconhecia o Reino ou se apenas ouvira falar.

Reconhecer Cristo como Rei é diferente de ouvir falar de Jesus. Conhecer Cristo pessoalmente reconhecendo seu senhorio sobre sua vida é algo bem diferente de apenas ouvir falar de Jesus. Hoje ainda há pessoas que ouvem falar de Jesus, tem a chance de confessar o Reino de Jesus, mas, como Pilatos, se esquivam e ‘deixa isso pra lá’.

O Senhor nos da a chance de o conhecermos pessoalmente e intimamente. Não apenas sabermos que Ele morreu na cruz e que está assentado a destra do Pai. Além disso, e mais que isso, Ele também nos acompanha, no deitar Ele nos assiste, no levantar Ele nos aguarda para um momento de adoração. Nos momentos de perigo, Ele está ali para nos proteger. Nas escolhas, Ele quer nos instruir. Devemos conhecê-lo não de ouvir falar, mas ouvir sua voz, a mansa e suave voz, que consola, exorta e nos edifica.


Então ele, pela terceira vez, lhes disse: Mas que mal fez este? Não acho nele culpa alguma de morte. Castigá-lo-ei pois, e soltá-lo-ei. Mas eles instavam com grandes gritos, pedindo que fosse crucificado. E os seus gritos, e os dos principais dos sacerdotes, redobravam. Então Pilatos julgou que devia fazer o que eles pediam. (Lucas 23:22-24)

Pilatos interroga Jesus e não encontra nada de errado. Percebe que Cristo não tem culpa de nenhuma das acusações. Por três vezes Pilatos declara a inocência do réu. Mas pela insistência dos príncipes judaicos Pilatos muda de opinião, e julga que deve fazer o que eles pediam.

Os Pilatos de hoje em dia fazem o mesmo. Conhecem a verdade sobre Cristo. Conhecem a santidade de Cristo. Conhecem que em Cristo não há erros. Mas essa opinião é mudada quando os príncipes deste mundo o pressionam. Diante da contínua pressão, suas opiniões são influenciadas. Em vez da luz resplandecer nas trevas, ocorre o contrário. Aqueles que deveriam influenciar são influenciados. Uma pena. Esses Pilatos mudam de opinião o tempo todo. Amam a igreja, mas quando alguém fala mal da igreja, sua opinião muda, e a igreja não é tão boa. Que pena.


Então Pilatos, querendo satisfazer a multidão, soltou-lhe Barrabás e, açoitado Jesus, o entregou para ser crucificado. (Marcos 15:15)
Pilatos agiu para agradar a multidão. Sua decisão foi tomada para satisfazer a multidão. Teve chance de reconhecer Jesus e seu Reino. Foi advertido pela esposa. Mas condenou um réu à pena máxima, mesmo sabendo de sua inocência.

Agradar multidões é coisa complicada. Essa mesma multidão que explode em gritos pedindo a crucificação, foi a mesma que recebeu Jesus em sua famosa entrada triunfal em Jerusalém. Como agradar essa multidão que celebra Jesus hoje e amanhã o nega?

Os Pilatos de hoje estão preocupados com status e posições de honra. Querem agradar as multidões para continuarem em seus postos elevados. Esses Pilatos vivem satisfazendo as multidões.

Multidões satisfeitas e Cristo sendo negado. Nosso compromisso deve ser agradar a Cristo, satisfazê-lo, ainda que tenhamos que ir contra as multidões. Os santos que lutarão com o Cordeiro em Apocalipse são mencionados como chamados, eleitos e fiéis. Não basta ter um chamado, ser eleito, devemos ser fiéis até o fim. Fidelidade é agradar o Senhor, ir à contra mão das multidões que nestes dias tenebrosos colocam a nossa fé em cheque. Ser fiel nestes dias de perseguições vai requerer de nós um posicionamento mais firme no Reino. Ou nos firmemos em fidelidade ao Senhor, ou iremos agradar essas multidões que tem se levantado contra o Reino de Deus.


Então Pilatos, vendo que nada aproveitava, antes o tumulto crescia, tomando água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Estou inocente do sangue deste justo. Considerai isso. (Mateus 27:24)

O ato de lavar as mãos mostra que Pilatos conhecia as escrituras. Este ato era feito pelos sacerdotes mosaicos. Conhecedor de escrituras não significa se submeter às escrituras. Se o conteúdo bíblico não mudar minha vida continuamente, nada me servirá conhecê-la.

E o mais grave nesta cena, Pilatos se declara inocente.

Os Pilatos de hoje também continuam com isso. Olham para sim e não vêem erros, o que fazem ‘não tem nada a ver’. Julgam-se inocente. Jesus nos deixou a parábola da oração do publicano e do fariseu. Enquanto o publicano reconheceu suas falhas e que nem era digno de estar diante de Deus, o fariseu se declara inocente. O publicano foi justificado, enquanto o fariseu ficou como exemplo negativo.

Olhar para si e ver inocência é um perigo. Afasta a necessidade da graça divina. Afinal, por que preciso de perdão se sou inocente. Na verdade, é Cristo que nos justifica. Por meio do sangue derramado é Ele que nos declara inocente dos pecados. Cabe a nós, o reconhecimento de nossas falhas, limitações e erros. Olharmos para nós, e nos vermos como pecadores.

Pecadores que precisam e dependem da graça. Pecadores arrependidos que necessitam do perdão do Senhor. Como uma postura de vida, e não um acontecimento isolado e único. Precisamos da graça hoje e sempre.

Não podemos ser Pilatos nos dias de hoje. Pilatos colocam Jesus como crucificado. Mas Jesus está vivo e reina para sempre.



Que a graça do nosso Senhor te acompanhe,
Bp Erisvaldo Pinheiro (ministrado em 18/03/2013)